Onde você estava escondido, lobo do cerrado? Em que cerrado ou estepe ou savana ou tundra você hibernou? Inverno mais longo do que o desejado. Longamente eu o procurei, meu amigo eu. Quase desisti, depois de caminhar por trilhas de cascalhos escorregadios e em meio a árvores tortas como a natureza e o poeta mineiro. Mas eu sabia que não podia me deixar tombar sedento no deserto sem fazer conviver em paz o lobo e o cordeiro que pastoreia e mim. Sai deste sono inimigo do tempo, lobo, porque o sonho não é suficiente.Parte em direção à lua que conduz o seu uivo. E me leva junto.
28 de jan. de 2011
Onde você estava escondido, lobo do cerrado?
Onde você estava escondido, lobo do cerrado? Em que cerrado ou estepe ou savana ou tundra você hibernou? Inverno mais longo do que o desejado. Longamente eu o procurei, meu amigo eu. Quase desisti, depois de caminhar por trilhas de cascalhos escorregadios e em meio a árvores tortas como a natureza e o poeta mineiro. Mas eu sabia que não podia me deixar tombar sedento no deserto sem fazer conviver em paz o lobo e o cordeiro que pastoreia e mim. Sai deste sono inimigo do tempo, lobo, porque o sonho não é suficiente.Parte em direção à lua que conduz o seu uivo. E me leva junto.
25 de jan. de 2011
São Paulo - 457 anos
Evocações de São Paulo
Passos amarrados
Pés acelerados
Calçados surrados sapatos italianos sandálias de dedo Havaianas saltos altos all star
Barulhos ocos ou silenciosos vão e vêm
Sob a calçada de mapas uniformes brancos e pretos
Sem reparar
O desenho
O contraste
O vento
A garoa
O papel em vôo livre que se recusa a ser lixo, Estadão, Folha
Movimentos lusitanos italianos africanos judeus árabes bolivianos mineiros e baianos,
Luz Bexiga Cerqueira César Santana TucuruviVila Mada Bom Retiro Higienópolis Mooca...Jardins
A cidade não termina, dá medo de tão grande!
Zona Norte Zona Sul Zona Leste Zona Oeste Zona global a partir da Sé
Japoneses ou coreanos ou chineses, Liberdade
Paulistas, paulistanos
Casais de todos os números e gêneros, tribos, punk
E solitários, de dia de noite
Paulistanos todos
Ainda que se odeiem, ou sejam indiferentes
Ainda que corintianos, palmerenses, sãopaulinos
O Pelé, o Senna, a Paula Mágica
Esbarram-se, cortam ruas e avenidas
Os olhos se cruzam às vezes
Enquanto se deviam dos carros que se desviam da marcha lenta
Sinal verde amarelo vermelho verde
Buzina
Fumaça
Sirene
E o céu, quem olha? Pergunta:
Será que vai chover?
Arranha-céus por todo lado, quantos andares!!!!!!!!!!??????
À noite, as luzes nas janelas acesas apagadas acesas abrasadas
Provocam brilho no olhar curioso do voyeur
Espelhados, fumês, espelhos d’água, concretos, retângulos, Otake
Paulista Avenida e ruas retilíneas e curvas
Esculturas esculpidas no abstrato, linhas retas esferas ponto
As mãos desejam acariciar bustos, corpos desnudos beijos
Rodin na Pinacoteca
Pinceladas robustas rasgantes rascantes cabeças grandes graffiti Osgemeos
Sobrados aqui e ali, resistindo aos tempos de megalomania
Lindas mulheres esguias ou não, grife Oscar Freire
Flores nas roupa flores no cabelo
Cores na roupa cores no cabelo, tatuagem
Vestidas com uma elegância que desmente Caetano,
As ondas invadem os céus, os prédios, os automóveis
Rock pop hip hop samba funk clássico eletrizante
No parque Ibirapuera na Sala São Paulo no Municipal
Osesp, Filarmônica de Israel, Titãs e o Arnaldo Antunes,
Vanzolini e sua ronda, os Demônios da Garoa e o Adoniran,
Maria Rita Lee, festivais da Record
E o Cauby no Bar Brahma
Metrô
Buracos
Marginais
Tietê
Rio dos fortes, dos desafios bandeirantes
Como quem chega, como quem fica, como quem parte mas não desiste
Perfumes de agora trazidos pela memória
Tabaco, café, pão francês saído do forno, com manteiga derretendo
Pizza, churrasquinho grego, esfirra, pastel de Bacalhau e temperos no Mercado Municipal
De vitrôs retratando o labor como a semente do progresso
E a lazanha da Cássia
Sabores e cheiros do mundo todos na Paulicéia que apenas se insinua
Tímida perua
Lá no topo do Itália, vejo São Paulo e me espelho
Que visão panorâmica do caos que é existir sem medida
Em expansão por não caber em si!
Em mim!
c cardoso
Passos amarrados
Pés acelerados
Calçados surrados sapatos italianos sandálias de dedo Havaianas saltos altos all star
Barulhos ocos ou silenciosos vão e vêm
Sob a calçada de mapas uniformes brancos e pretos
Sem reparar
O desenho
O contraste
O vento
A garoa
O papel em vôo livre que se recusa a ser lixo, Estadão, Folha
Movimentos lusitanos italianos africanos judeus árabes bolivianos mineiros e baianos,
Luz Bexiga Cerqueira César Santana TucuruviVila Mada Bom Retiro Higienópolis Mooca...Jardins
A cidade não termina, dá medo de tão grande!
Zona Norte Zona Sul Zona Leste Zona Oeste Zona global a partir da Sé
Japoneses ou coreanos ou chineses, Liberdade
Paulistas, paulistanos
Casais de todos os números e gêneros, tribos, punk
E solitários, de dia de noite
Paulistanos todos
Ainda que se odeiem, ou sejam indiferentes
Ainda que corintianos, palmerenses, sãopaulinos
O Pelé, o Senna, a Paula Mágica
Esbarram-se, cortam ruas e avenidas
Os olhos se cruzam às vezes
Enquanto se deviam dos carros que se desviam da marcha lenta
Sinal verde amarelo vermelho verde
Buzina
Fumaça
Sirene
E o céu, quem olha? Pergunta:
Será que vai chover?
Arranha-céus por todo lado, quantos andares!!!!!!!!!!??????
À noite, as luzes nas janelas acesas apagadas acesas abrasadas
Provocam brilho no olhar curioso do voyeur
Espelhados, fumês, espelhos d’água, concretos, retângulos, Otake
Paulista Avenida e ruas retilíneas e curvas
Esculturas esculpidas no abstrato, linhas retas esferas ponto
As mãos desejam acariciar bustos, corpos desnudos beijos
Rodin na Pinacoteca
Pinceladas robustas rasgantes rascantes cabeças grandes graffiti Osgemeos
Sobrados aqui e ali, resistindo aos tempos de megalomania
Lindas mulheres esguias ou não, grife Oscar Freire
Flores nas roupa flores no cabelo
Cores na roupa cores no cabelo, tatuagem
Vestidas com uma elegância que desmente Caetano,
As ondas invadem os céus, os prédios, os automóveis
Rock pop hip hop samba funk clássico eletrizante
No parque Ibirapuera na Sala São Paulo no Municipal
Osesp, Filarmônica de Israel, Titãs e o Arnaldo Antunes,
Vanzolini e sua ronda, os Demônios da Garoa e o Adoniran,
Maria Rita Lee, festivais da Record
E o Cauby no Bar Brahma
Metrô
Buracos
Marginais
Tietê
Rio dos fortes, dos desafios bandeirantes
Como quem chega, como quem fica, como quem parte mas não desiste
Perfumes de agora trazidos pela memória
Tabaco, café, pão francês saído do forno, com manteiga derretendo
Pizza, churrasquinho grego, esfirra, pastel de Bacalhau e temperos no Mercado Municipal
De vitrôs retratando o labor como a semente do progresso
E a lazanha da Cássia
Sabores e cheiros do mundo todos na Paulicéia que apenas se insinua
Tímida perua
Lá no topo do Itália, vejo São Paulo e me espelho
Que visão panorâmica do caos que é existir sem medida
Em expansão por não caber em si!
Em mim!
c cardoso
31 de dez. de 2010
balanço de fim de ano - Salve 2011
Escrevi este poema há dois anos, mas ele continua, em grande parte, atual, e vale ser republicado e lido e relido por mim mesmo, para que eu retire da bagagem o peso desnecessário e siga a minha viagem de peregrino com mais leveza e com um pouco mais de consciência de onde estou e para onde vou.
2010 tem sido um ano de mudanças maravilhosas para mim e a mais importante, sem dúvida, é o meu reencontro com Deus, que não desistiu de mim. Um caminho parecido com o de muitos céticos, a exemplo do percorrido por C. S.. Lewis. Dou graças e estou certo de que 2011 será igualmente fantástico. FELIZ 2011.
Balanço de fim de ano
Fim de ano
Balanço
A minha existência ondeante, o ano, os anos
Muito se passou, muito há por(vir)
O que fiz, o que faço, o que farei?
Tive filhos, mandei plantar uma árvore, não escrevi
aquele livro
Mudei muito, mudo muito, sempre vou mudar muito
E tornei a ser o que sou
Eu não sei
Mutante que perscruta os enigmas que atormentam as criaturas que penam
Por este e por outros mundos
De dia, ainda que escaldante o sol ou torrencial a chuva
À noite, pelas sombras, iluminado apenas pelo frágil fogo da vela
Cera consumida grão a grão
Já fui crédulo mas a idade da razão me ensinou a descrer primeiro
Duvido como método mas quero crer
Em que?
Que não vou morrer em vão, que o vazio pode ser preenchido
Como um poema que vai dando forma e beleza à folha em branco
Como uma criança toda dependente da mãe que vai descobrindo os movimentos de emancipação
Não me pergunte sobre Deus, eu o procurei por todo canto
Em todo beco escuro
Nas igrejas, nos centros, nos templos, nas sinagogas
Como o filho bastardo atrás do pai desconhecido
Ansioso por uma verdade que, acredita, irá torná-lo menos indigno
Menos desprovido de uma causa plausível
Só encontrei o silêncio eloqüente da tragicomédia humana
A repugnante imagem da besta devorando a inocência ensangüentada
Pergunte-me sobre o Homem, eu os encontrei alguns
Homens e mulheres
Que desafiam a lógica dos céus e da terra, com técnica e arte
E das dores produzem a alegria momentânea de viver
Para a deles e para as gerações futuras
E eu os invejo de inveja boa
Não sou pessimista nem amargo, sou apenas o que vê com olhos críticos
Amei muito, amo muito, sempre vou amar muito
Porque só a paixão possui a capacidade de criar
A liberdade, a verdade, a beleza, a justiça
Porque só quem tem paixão está disposto o pagar o preço
De seguir em frente, sem medo do sofrimento e do fracasso
Amei e odiei as mulheres que me rejeitaram
Amei e desamei as que me amaram
E amo uma vez mais, combustível, inflamável
Eternamente enquanto dure
Até que a morte nos separe
À cumplicidade dos amantes não há gozo comparável
Mas tem o espelho
Revelando as rugas, os cabelos e a barba brancos, o segundo tempo
O tic tac jogando contra
Como eu queria a minha maturidade somada à juventude que perdi
Como eu desejo a sensual imortalidade do Highlander
Que pela espada vence deuses e demônios e mortais
Numa conquista constante da liberdade
Alimentando-se da aventura trovejante da história
E renascendo a cada instante e por toda a eternidade
Pudera eu viver sem fim para escrever história(s)
Não importa, tem o agora
A infinitude do presente aberta para a concretização dos sonhos
De liberdade
De verdade
De beleza
De justiça
Vou transformá-los em realidade agora, é o que importa
Porque o espelho também me confessa: você pode!
c cardoso
2010 tem sido um ano de mudanças maravilhosas para mim e a mais importante, sem dúvida, é o meu reencontro com Deus, que não desistiu de mim. Um caminho parecido com o de muitos céticos, a exemplo do percorrido por C. S.. Lewis. Dou graças e estou certo de que 2011 será igualmente fantástico. FELIZ 2011.
Balanço de fim de ano
Fim de ano
Balanço
A minha existência ondeante, o ano, os anos
Muito se passou, muito há por(vir)
O que fiz, o que faço, o que farei?
Tive filhos, mandei plantar uma árvore, não escrevi
aquele livro
Mudei muito, mudo muito, sempre vou mudar muito
E tornei a ser o que sou
Eu não sei
Mutante que perscruta os enigmas que atormentam as criaturas que penam
Por este e por outros mundos
De dia, ainda que escaldante o sol ou torrencial a chuva
À noite, pelas sombras, iluminado apenas pelo frágil fogo da vela
Cera consumida grão a grão
Já fui crédulo mas a idade da razão me ensinou a descrer primeiro
Duvido como método mas quero crer
Em que?
Que não vou morrer em vão, que o vazio pode ser preenchido
Como um poema que vai dando forma e beleza à folha em branco
Como uma criança toda dependente da mãe que vai descobrindo os movimentos de emancipação
Não me pergunte sobre Deus, eu o procurei por todo canto
Em todo beco escuro
Nas igrejas, nos centros, nos templos, nas sinagogas
Como o filho bastardo atrás do pai desconhecido
Ansioso por uma verdade que, acredita, irá torná-lo menos indigno
Menos desprovido de uma causa plausível
Só encontrei o silêncio eloqüente da tragicomédia humana
A repugnante imagem da besta devorando a inocência ensangüentada
Pergunte-me sobre o Homem, eu os encontrei alguns
Homens e mulheres
Que desafiam a lógica dos céus e da terra, com técnica e arte
E das dores produzem a alegria momentânea de viver
Para a deles e para as gerações futuras
E eu os invejo de inveja boa
Não sou pessimista nem amargo, sou apenas o que vê com olhos críticos
Amei muito, amo muito, sempre vou amar muito
Porque só a paixão possui a capacidade de criar
A liberdade, a verdade, a beleza, a justiça
Porque só quem tem paixão está disposto o pagar o preço
De seguir em frente, sem medo do sofrimento e do fracasso
Amei e odiei as mulheres que me rejeitaram
Amei e desamei as que me amaram
E amo uma vez mais, combustível, inflamável
Eternamente enquanto dure
Até que a morte nos separe
À cumplicidade dos amantes não há gozo comparável
Mas tem o espelho
Revelando as rugas, os cabelos e a barba brancos, o segundo tempo
O tic tac jogando contra
Como eu queria a minha maturidade somada à juventude que perdi
Como eu desejo a sensual imortalidade do Highlander
Que pela espada vence deuses e demônios e mortais
Numa conquista constante da liberdade
Alimentando-se da aventura trovejante da história
E renascendo a cada instante e por toda a eternidade
Pudera eu viver sem fim para escrever história(s)
Não importa, tem o agora
A infinitude do presente aberta para a concretização dos sonhos
De liberdade
De verdade
De beleza
De justiça
Vou transformá-los em realidade agora, é o que importa
Porque o espelho também me confessa: você pode!
c cardoso
21 de jun. de 2010
20 de jun. de 2010
anjos
Não existem anjos, assexuados, com suas asas recolhidas ou abertas, em algum lugar no espaço etéreo guardando a gente, atuando como mensageiros junto a um deus produto da nossa necessidade de preencher o vazio. Mas existem anjos, sim, homens e mulheres, com sangue nas veias, protegendo-nos, anonimamente em geral, sem precisar de uma prece, lutando diariamente, alguns nos lugares mais obscuros do mundo, outros, em grandes centros urbanos, todos com um objetivo: contribuir para uma vida melhor, para a evolução. Por exemplo, cientistas pesquisando a cura de doenças, cuidando da flora e da fauna, investigando novas fontes de energia e criando novas tecnologias; médicos, enfermeiros, veterinários e bombeiros salvando vidas; advogados defendendo injustiçados; engenheiros construíndo casas, pontes, metros e aviões; policiais cuidando da segurança; empresários produzindo alimentos, roupas, empregos e filantropia; professores transmitindo conhecimento e valores...São esses seres que merecem a nossa atenção e o nosso reconhecimento, não aqueles invisíveis e silenciosos residentes de uma dimensão que só cabe nos livros de ficção. Quanto tempo desperdiçado com o ilusório, em igrejas, quando deveríamos gastá-lo na aquisição do saber? Quanto dinheiro jogado fora, enriquecendo líderes religiosos charlatães, quando deveríamos usá-lo investindo em Ciência e Tecnologia? É verdade que a Ciência tem as suas limitações e não satisfaz plenamente, mas quanto não teríamos ampliado as fronteiras do conhecimento se nos dedicássemos mais a ela e menos à religião e aos seus mitos?
16 de jun. de 2010
esta rua não
Al(quem) estendido sob o tecido roto
Encardido como a calçada de pedras corroídas,
Na cama de papelão e frio dorme e não sonha,
Cadáver em que ainda há um sopro inaldível.
O manto não é coberta, é mortalha sagrada.
O cachorro e as pulgas sonolentos
Velam o amigo de desventuras e abandono,
Aquecidos pela porta do estabelecimento cerrada,
À espera das horas, do momento de catar as sobras.
Os meus olhos aflitos no espanto...
Quantos por esta rua de prédios cinzentos [como suas peles]
Pelo tempo descuidados jogados pelos cantos
Amontoados nas paredes grafitadas sem arte
Respirando as fezes, o mijo, o crack.
Rápido, rápido, me afasta daqui para a minha rua!
Esta rua não é a minha calçada de pedras cintilantes
Circundada por torres altivas de uma côr impecável
Espelhos da gente que ali passa rumo à casa
Para encontrar a lareira, o vinho, o abraço.
c cardoso
Encardido como a calçada de pedras corroídas,
Na cama de papelão e frio dorme e não sonha,
Cadáver em que ainda há um sopro inaldível.
O manto não é coberta, é mortalha sagrada.
O cachorro e as pulgas sonolentos
Velam o amigo de desventuras e abandono,
Aquecidos pela porta do estabelecimento cerrada,
À espera das horas, do momento de catar as sobras.
Os meus olhos aflitos no espanto...
Quantos por esta rua de prédios cinzentos [como suas peles]
Pelo tempo descuidados jogados pelos cantos
Amontoados nas paredes grafitadas sem arte
Respirando as fezes, o mijo, o crack.
Rápido, rápido, me afasta daqui para a minha rua!
Esta rua não é a minha calçada de pedras cintilantes
Circundada por torres altivas de uma côr impecável
Espelhos da gente que ali passa rumo à casa
Para encontrar a lareira, o vinho, o abraço.
c cardoso
13 de jun. de 2010
Uma das principais razões que me motivaram a mudar para São Paulo foi o seu lado cultural. A cidade oferece inúmeras opções: concertos clássicos ou de rock; cinema experimental ou holllywoodiano; arte nas ruas, nas galerias, nos museus, e teatro, muito teatro, para todos os gostos, dos duvidosos aos mais requintados. Para o dia 12, dos namorados, pretendia levar a minha namorada para ver "Simplesmente eu, Clarice Lispector", mas os ingressos estavam esgotados até o fim da temporada. O jantar romântico reservei para a noite anterior, sabendo o quanto seria difícil encontrar uma mesa em um bom restaurante na data em que todos os pares entram no clima das luzes de velas ao som de músicas que falam de amores, estimulados pelo sábio comércio. Decidi, então, assistir a uma outra Clarice, também judia, também talentosa, no monólogo "A Alma Imoral", baseado na obra do Rabino Nilton Bonder, e não me arrependi. Clarice Niskier atua sozinha, no palco de poucas luzes e muitas sombras, decorado de modo minimalista, com foco na sua dança de desnudar-se e de cobrir-se, despindo e vestindo as mentes de quem a assiste. Ela dialoga soberana com a platéia, ainda que ninguém a responda falando, mas apenas sorria ou dilate as pupila, tentando acompanhar o seu raciocínio rápido, as suas provocações à nossa sensibilidade. Valendo-se de histórias do Judaísmo, ela enfrenta como tema central a tensão entre a tradição e a transgressão, e demonstra, com um humor sutil e refinado, tipicamente judaico, que é a boa convivência com essa tensão que produz a evolução do ser humano. É ela a ponte entre o passado e o futuro. De fato, se de um lado a tradição revela a sabedoria construída pelo tempo por meio da experiência, de outro, nada se experimentaria, de modo a estabelecer a tradição, se não se arriscasse a quebrá-la. Aonde estaria a humanidade ainda, se inteiramente fiel à tradição, por exemplo, de oferecer sacrifícios humanos aos deuses, de possuir escravos adquiridos nas vitórias das guerras, ou de estuprar as mulheres dos inimigos usando-as como troféu de batalhas? Aonde estaria a humanidade ainda, se Corpénico e Galileu não tivessem ido de encontro à tradição do geocentrismo, os navegadores do sec. XV não tivessem desafiado os monstros dos Oceanos, e os Iluministas tivessem se mantido curvados à tradição absolutista? Porém, o que seríamos nós se não tivéssemos conservado a filosofia dos Gregos, a experiência jurídica dos Romanos, a tradição democrática inglesa, a arte inspirada nos mitos de todos os tempos e de todos os cantos do Planeta? A sabedoria está em distinguir o que conservar e o que jogar no lixo e em ter coragem para conservar o que deve ser conservado e em descartar o que deve ser descartado, não importa quantos se oponham a isso. Sem esses sábios e corajosos, a espécie humana nem se conserva nem progride. Isto vale também, claro, para o indivíduo e o seu crescimento como ser. Transgredir por transgredir é tolice, como também o é seguir hábitos e costumes por comodismo. Como bem assinala a peça, o destino do homem é a expansão, destino este já revelado no ventre materno. Seria mais confortável para o bebê permanecer ali, alimentado pela mãe e protegido, pelo líquido aminiótico, das mazelas do mundo exterior. Mas é necessário que ele rompa com este conforto, se lance de cabeça para as incertezas do mundo afora, e cresça em liberdade, senhor do seu rumo. Do contrário, ele não sobrevive. É preciso que não temamos as mudanças indispensáveis e que igualmente não desprezemos o conhecimento elaborado ao longo da nossa história, como ensina a tradição judaica segundo a leitura do Rabino Bonder. Vê-se, aqui, que a arte de Clarice Niskier cumpriu a sua função, me fez sorrir e me fez pensar.
10 de jun. de 2010
Fé e descrença
Ruth Tucker, escritora cristã, resolveu, forçada pelas suas próprias dúvidas, examinar como as pessoas religiosas, ou que foram religiosas um dia, particularmente no meio cristão norte-americano, lidam com a incerteza quanto à existência de um Deus pessoal e quanto à ação de uma força sobrenatural sobre as suas vidas. Contrariamente aos fundamentalistas que não admitem sequer que essa questão passe pela cabeça e que satanizam qualquer um que se atreva a fazer essa pergunta essencial, ela busca compreender a luta entre a fé e a descrença bem como as suas consequências na existência do questionador, embora o intuito da autora seja, ao final, tentar, respeitosamente, trazer de volta o descrente para a fé cristã e não afastá-lo definitivamente por causa da intolerância. Achei interessante a leitura da obra "Fé e Descrença", porque ela noticia experiências semelhantes à minha, de pessoas que, nascidas em um ambiente religioso, abandonaram a fé, depois de muito procurar e questionar, e tornaram-se agnósticas ou atéias, movidas pelo silêncio de um Deus ausente e pelas provocações da razão. No meu caso, os meus pais, apesar de não ligados a nenhuma denominação religiosa, sempre acreditaram piamente na existência de Deus e sempre se consideraram cristãos, adotando aquele sincretismo tipicamente brasileiro, em que Catolicismo e Espiritismo se mesclam contra todos os dogmas. Por algum motivo inexplicável, essa influência cultural encontrou em mim barreira intransponível e, como diz Caetano em uma de suas músicas, para mim "branco é branco, preto é preto, e a mulata não é a tal..." Por isso, tornei-me católico ortodoxo, mas sem perder o senso crítico. O Catolicismo possui uma estrutura material e imaterial bem organizada, tradição milenar, e é elemento fundamental da formação da identidade brasileira, o que o diferencia das seitas, principalmente protestantes, que vão se multiplicando de modo infinezimal, conforme o humor do auto-denominado pastor que interpreta a Bíblia conforme a clientela. Mas, por ser, em que pese a busca de uma identidade via enquadramento, um livre pensador insatisfeito com as respostas oferecidas pelo Catolicismo e vivendo sempre cheio de dúvidas, abandonei o Catolicismo e procurei o Espiritismo, depois a Teosofia, o Budismo, o Judaísmo, o Protestantismo tradicional, sempre lendo (a Bíblia, por exemplo, com suas histórias entediantes ou incompreensíveis), sempre orando (monólogo), indo a fundo, seguindo as regras (mandamentos) e nada de respostas convincentes, e nada de manifestação divina. Um círculo vicioso. Aí descobri a Filosofia. Na verdade, até então, por causa de Dostoievski, eu pensava que não precisava nem da Filosofia nem da Psicologia, pois bastava a Literatura para entender a vida. Descobri a Filosofia, repito. Ela me revelou que, se ela e a Ciência não têm todas as respostas, e nunca terão, o meu método, o da dúvida, é o método do filósofo e do cientista que nos aproxima da verdade, do horizonte. Ela me mostrou que a fé cega é mesmo incompatível com a verdade que eu tanto procuro. Ela está me ensinando a pensar, a valorizar a razão, e a entender os nossos limites. Acima de tudo, ela me ensina a ser tolerante, porque não há certezas. Mas é a Arte que me aconselha a parar de me torturar à procura de um Ser transcedental que me de sentido. O sentido da minha existência sou eu quem dá, não uma divindade criada por nós para justificar o desconhecido. Isto, para muitos parece terrível, pois parece mais confortável delegar responsabilidades. Para mim, não mais. Para mim, é melhor ter claro o que é mito e o que não é. Qual a diferença do Deus judaico-cristão para os deuses gregos, romanos ou egípcios? Por que Zeus é um mito e Javé não? Felizmente, nós evoluímos e ampliamos os nossos conhecimentos até percebemos que a era dos mitos tem de acabar. Estamos conscientes de que um trovão não é provocado por um deus. Muitos parecem que não, que pena! Sabemos, ou deveríamos saber, que, até prova em contrário, Darwin está certo. Tucker e vários outros permanecem na fé porque é mais cômodo. É mais cômodo continuar enquadrado, porque o enquadramento oferece um rumo experimentado, que não oferece grandes riscos. Talvez isso implique menos angustias. Mas, ela reconhece, muitos que deixaram de acreditar são hoje mais felizes. Não só porque deixaram de sentir uma culpa que lhes foi atribuída por um pretenso pecado cometido por ancestrais mitológicos conhecidos como Adão e Eva - nem a Justiça humana, tão cheia de vícios, cometeria tamanha injustiça - mas também porque deixaram de ir atrás de alguém que simplesmente não está lá, e, por isso, não virá em nosso socorro. São mais felizes, porque não são mais perturbados pelo ensurdecedor silêncio e porque assumiram a autoria de suas vidas sem se preocupar com o que vem depois da morte. Eu sou mais feliz, apesar de tanta responsabilidade, porque não mais trago culpas que não são minhas, porque não mais busco o que é impossível de encontrar, porque só eu sou o dono da minha vida e eu sou capaz de dirigi-la. Não me importa que não sou imortal. Importa que estou contribuíndo para os que estão relacionados comigo e as gerações que virão depois sejam felizes na medida do que está ao meu alcance. Engana-se aquele que acredita que, como dito por personagem de Dostoievski, sem Deus tudo é permitido. Quem não acredita em Deus pode ser tão ou mais ético do que quem acredita, e com maior mérito, pois a sua conduta certa não decorre do medo da punição mas do uso da razão. Veja, a propósito, por exemplo, as lições de Paul Singer. A ética do ateu, porém, tratarei posteriormente.
8 de jun. de 2010
Frio
Esta noite não, Sem Sentido!
O ar assalta pela fresta
Frio de arrepiar os ossos da
Alma saudosa de aconchego.
Criança órfã no sofá surrado,
As luzes, os prédios, a TV.
Não há folhas tremulando. Nada há, apesar do sopro.
Quem recolhido por trás daquelas janelas...
Só? Aquecido(a)?
Braços e pernas encolhidos,
Gelados no berço fashion.
O choro lá e cá.
Adulto. Faminto.
Onde está você para me aquecer
Com os seus seios?
Onde está você para me acalentar
Com o seu (en)canto?
Noite e frio e
Prédios e luzes e
TV
Quer uma sopa, Sem Sentido?
c cardoso
O ar assalta pela fresta
Frio de arrepiar os ossos da
Alma saudosa de aconchego.
Criança órfã no sofá surrado,
As luzes, os prédios, a TV.
Não há folhas tremulando. Nada há, apesar do sopro.
Quem recolhido por trás daquelas janelas...
Só? Aquecido(a)?
Braços e pernas encolhidos,
Gelados no berço fashion.
O choro lá e cá.
Adulto. Faminto.
Onde está você para me aquecer
Com os seus seios?
Onde está você para me acalentar
Com o seu (en)canto?
Noite e frio e
Prédios e luzes e
TV
Quer uma sopa, Sem Sentido?
c cardoso
3 de jun. de 2010
shame on me
Fiquei meses sem escrever, sem visitar o meu próprio blog. Para que? perguntei-me inúmeras vezes, afinal ninguém lê mesmo! Nunca concordei com alguns escritores que afirmam que escrevem para eles próprios, pouco importando o leitor. A escrita, é essencialmente, um meio de comunicação e requer um comunicador e um receptor. Se esse receptor não reage, ela está falhando de alguma forma. É verdade que ela também envolve a minha necessidade vital de escavar as profundezas obscuras de minha alma e da sociedade em que vivo à procura de uma luz acerca do meu ser e de minha situação em universo incompreensível. Por intermédio dela me exponho não só para o outro mas para mim mesmo e me descubro um pouco mais à medida que me identifico e me diferencio. Talvez até expulse fantasmas, ou os compreenda melhor, sem necessitar gastar com psicanalistas. Mas quando o que escrevo não atinge o leitor, sinto aquele pavoroso silêncio de quando tolamente cria e orava e ninguém, a não ser o o vazio, respondia. Detesto monólogos. Odeio aqueles que adoram ouvir longamente e apenas a própria voz. Nada me dá mais prazer do que trocar idéias e sensações. Sei que é raro um escritor observar a reação de um leitor, mas eu já tive esse privilégio. Já pude ver na expressão facial da pessoa que lia um poema meu que ela estava sendo tocada. As palavras não eram a conjunção de letras de um alfabeto desconhecido. Eram o som de uma música que convida a dançar a dois. Não ter escrito esses meses é uma vergonha! Sei que há leitores, uns poucos talvez, mas que me honram com a sua disposição de me escutarem, e, por isso, merecem que eu não me cale e que eu aperfeiçoe cada vez mais o uso das palavras e provoque reações. Ainda que seja um único, eu tenho que continuar escrevendo. Expressando-me. Por mim. Sem isso, é morte em conta gotas. É o isolamento do moribundo. Com isso, é a arte de viver.
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