24 de dez de 2008

Feliz Natal

Tenho ligado para diversos amigos e cumprimentado várias pessoas desejando "Boas festas"e "Feliz 2009"e resistido a usar a expressão "Feliz Natal", afinal não sou cristão. Mesmo quando eu era, via com reserva a festa natalina pelo ênfase ao consumo em detrimento da filosofia cristã de desapego às coisas materiais. Nunca fui contra o consumo, sou capitalista, burguês, e acredito no livre comércio como fonte de riqueza e progresso. Mas, já naquela época, estranhava que, raramente, a data era lembrada como a do nascimento de Jesus Cristo e o que isso significava para os adeptos do Cristianismo. Impressionavam-me os exageros, a começar pela comilança... Perturbava-me a hipocrisia de pessoas que sequer se gostavam e manifestavam um apreço entre elas que não ultrapassava as doze horas seguintes à troca de presentes e de abraços. Perguntava-me por que o tal do espírito natalino não durava o ano todo, considerando-se o número de pessoas que entupiam os shoppings centers e as ruas de comércio na véspera de Natal, conquistando espaços com a bravura de um guerreiro e suportando o castigo do tempo com a paciência de Jó. Hoje, quando estou convencido de que a diferença entre o Cristianismo e as mitologias ditas "pagãs" é, especialmente, de número (de deuses), percebo que a existência de uma data que estimula e valoriza a troca de dar-se, ainda que por um frágil e breve momento, é melhor do que nada. Por que, então, resistir? Feliz Natal!

22 de dez de 2008

stand by me
the beatles
Composição: John Lennon

When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we see
No, I won't be afraid
Oh, I won't be afraid
Just as long as you stand
Stand by me, and

Darling darling stand by me
Oh, stand by me
Oh stand, stand by me, stand by me

If the sky that we look upon
Should tumble and fall
Or the mountain
Should crumble to the sea
I won't cry, I won't cry
No, I won't shed a tear
Just as long as you stand
Stand by me, and

Darling darling stand by me
Oh, stand by me
Oh stand, stand by me, stand by me

18 de dez de 2008

"Poesia é voar fora da asa"

Manoel de Barros

rápido e rasteiro - Chacal

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar

aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida

14 de dez de 2008

Balanço de fim de ano

Fim de ano
Balanço
A minha existência ondeante, o ano, os anos

Muito se passou, muito há por(vir)

O que fiz, o que faço, o que farei?
Tive filhos, mandei plantar uma árvore, não escrevi
aquele livro

Mudei muito, mudo muito, sempre vou mudar muito
E tornei a ser o que sou
Eu não sei
Mutante que perscruta os enigmas que atormentam as criaturas que penam
Por este e por outros mundos
De dia, ainda que escaldante o sol ou torrencial a chuva
À noite, pelas sombras, iluminado apenas pelo frágil fogo da vela
Cera consumida grão a grão

Já fui crédulo mas a idade da razão me ensinou a descrer primeiro
Duvido como método mas quero crer
Em que?
Que não vou morrer em vão, que o vazio pode ser preenchido
Como um poema que vai dando forma e beleza à folha em branco
Como uma criança toda dependente da mãe que vai descobrindo os movimentos de emancipação

Não me pergunte sobre Deus, eu o procurei por todo canto
Em todo beco escuro
Nas igrejas, nos centros, nos templos, nas sinagogas
Como o filho bastardo atrás do pai desconhecido
Ansioso por uma verdade que, acredita, irá torná-lo menos indigno
Menos desprovido de uma causa plausível
Só encontrei o silêncio eloqüente da tragicomédia humana
A repugnante imagem da besta devorando a inocência ensangüentada

Pergunte-me sobre o Homem, eu os encontrei alguns
Homens e mulheres
Que desafiam a lógica dos céus e da terra, com técnica e arte
E das dores produzem a alegria momentânea de viver
Para a deles e para as gerações futuras
E eu os invejo de inveja boa

Não sou pessimista nem amargo, sou apenas o que vê com olhos críticos

Amei muito, amo muito, sempre vou amar muito
Porque só a paixão possui a capacidade de criar
A liberdade, a verdade, a beleza, a justiça
Porque só quem tem paixão está disposto o pagar o preço
De seguir em frente, sem medo do sofrimento e do fracasso

Amei e odiei as mulheres que me rejeitaram
Amei e desamei as que me amaram
E amo uma vez mais, combustível, inflamável
Eternamente enquanto dure
Até que a morte nos separe

À cumplicidade dos amantes não há gozo comparável

Mas tem o espelho
Revelando as rugas, os cabelos e a barba brancos, o segundo tempo
O tic tac jogando contra
Como eu queria a minha maturidade somada à juventude que perdi
Como eu desejo a sensual imortalidade do Highlander
Que pela espada vence deuses e demônios e mortais
Numa conquista constante da liberdade
Alimentando-se da aventura trovejante da história
E renascendo a cada instante e por toda a eternidade

Pudera eu viver sem fim para escrever história(s)

Não importa, tem o agora
A infinitude do presente aberta para a concretização dos sonhos
De liberdade
De verdade
De beleza
De justiça

Vou transformá-los em realidade agora, é o que importa
Porque o espelho também me confessa: você pode!

c cardoso

12 de dez de 2008

TABACARIA

Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

11 de dez de 2008

Vejam esta frase bem oportuna:
"Fear is static that prevents me from hearing myself."
Samuel Butler
Os corajosos determinam o próprio destino e mesmo o de outras pessoas, porque eles não temem montar no cavalo que passa e que se oferece para os transportar pelas estradas sinuosas da vida. Seguram as rédeas com a confiança de quem sabe que está no mando, apesar da responsabilidade que é governar e da presença permanente do risco de errar; os medrosos são manipulados pelo destino, como os cavalos guiados pelo cabresto, porque apostam mais no fracasso do que no sucesso, e preferem quedar-se resmungando à espera da morte do que pôr a mão na massa e construir e reconstruir a vida. Os corajosos colherão no momento certo e na medida certa os doces frutos da sua ousadia; os medrosos receberão a escassez produzida pela sua paralisia.

8 de dez de 2008

São Paulo FC - É Hexa!

Não sou um torcedor fanático, mas não poderia deixar de comemorar o campeonato brasileiro conquistado pelo São Paulo, cantando com os demais saopaulinos:

Salve o Tricolor Paulista
Amado clube brasileiro
Tu és forte, tu és grande
Dentre os grandes és o primeiro
Tu és forte, tu és grande
Dentre os grandes és o primeiro
Ó Tricolor
Clube bem amado
As tuas glórias
Vêm do passado
Ó Tricolor
Clube bem amado
As tuas glórias
Vêm do passado
São teus guias brasileiros
Que te amam eternamente
De São Paulo tens o nome
Que ostentas dignamente
De São Paulo tens o nome
Que ostentas dignamente
Ó Tricolor
Clube bem amado
As tuas glórias
Vêm do passado
Ó Tricolor
Clube bem amado
As tuas glórias
Vêm do passado



São Paulo clube querido
Tu tens o nosso amor
Teu nome e as tuas glórias
Tem honra e resplendor
Teu nome e as tuas glórias
Tem honra e resplendor
Ó Tricolor
Clube bem amado
As tuas glórias
Vêm do passado
Ó Tricolor
Clube bem amado
As tuas glórias
Vêm do passado
Tuas cores gloriosas
Despertam um amor febril
Pela terra bandeirantes
Honra e glória do Brasil
Pela terra bandeirante
Honra e glória do Brasil
Ó Tricolor
Clube bem amado
As tuas glórias
Vêm do passado
Ó Tricolor
Clube bem amado
As tuas glórias
velha infância

tribalistas
Composição: Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte

Você é assim
Um sonho prá mim
E quando eu não te vejo
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito...

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor...

E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância...

Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só...

Você é assim
Um sonho prá mim
Quero te encher de beijos
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito...

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor...

E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância...

Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só...

Você é assim
Um sonho prá mim
Você é assim...
Você é assim...
Você é assim...

-"Você é assim
Um sonho prá mim
E quando eu não te vejo
Penso em você
Desde o amanhecer
Até quando me deito
Eu gosto de você
Eu gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor"

6 de dez de 2008

paradeiro

Composição: Arnaldo Antunes, Marisa Monte

Haverá paradeiro
Para o nosso desejo
Dentro ou fora de um vício?

Uns preferem dinheiro
Outros querem um passeio
Perto do precipício.

Haverá paraíso
sem perder o juízo e sem morrer?

Haverá pára-raio
Para o nosso desmaio
No momento preciso?

Uns vão de pára-quedas
Outros juntam moedas
antes do prejuízo

Num momento propício
Haverá paradeiro para isso?

Haverá paradeiro
Para o nosso desejo
Dentro ou fora de nós?