28 de mai de 2008

A pérola - experiência com o concretismo

A concha (re)pousa
No
(pro)fundo
do
mar

abrE/Fecha


A pérola s’esconde
No
(re)canto
da
concha

aparecE/Some


A pérola na concha
Encolhida
Não colhida

L o n g e da pele feminina

É areia envolta de nácar

c cardoso

26 de mai de 2008

presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, o ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma
janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso saudade para eu te sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa
da vida
Mas quando surges és tão outra e múltipla e
imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato..
E eu tenho de fechar os meus olhos para ver-te!

Mário Quintana

21 de mai de 2008

dr. House

Sempre me pergunto o que faz de House um personagem tão fascinante; conheço várias pessoas que adoram o House, um cara seco, cruel com quem trabalha com ele (todos torcemos pela Cameron e achamos Chase um idiota), e, pior, duro com seus pacientes; alguém que não mede palavras, sem a menor preocupação de ser antipático, de aliviar a dor; alguém cuja miséria é proporcional ao seu ego, e que possui total carência de fé na espécie humana. Por que a personalidade de House nos atrai tanto (interrogação). Talvez porque para o House o que importa é a verdade, independentemente de suas conseqüências. Para ele, não importa a cura, interessa o diagnóstico; se, a partir do diagnóstico encontrar-se a cura, tanto melhor. E, ainda assim, ele cura e se sai imune em relação àqueles que desejam impor a mentira. É um artista da verdade porque, apesar do seu ceticismo, ele propala otimismo, ele prega a favor da razão. Ele nos ensina que não devemos nos contentar com pouco, isto é, como o que nos pregam como inquestionável. Nem deus é inquestionável...Viva House

18 de mai de 2008

escritores: Henry e Anais

Acabo de rever "Henry e June" de Philip Kaufman, o mesmo diretor do maravilhoso "A insustentável leveza do ser", que também necessito rever. Um filme memorável pela beleza plástica - uma Paris cinzenta, com bares e bordéis repletos de fumaça de cigarros e vielas ou becos dominados pela neblina do outono e inverno - e pela pujança da história baseada no romance de Anais Nin. Na verdade, o título poderia ser "Henry e Anais", a história da relação entre dois escritores - da autora com Henry Miller - fundamental para a obra de um de outro. Esses escritores, que reconhecem D. H. Lawrence como um marco na literatura contemporânea por quebrar tabus, enfatizaram que o sexo não é algo impuro mas, ao contrário, parte inseparável da inocência, o que, para uma sociedade embasada no puritanismo de Paulo, soa absurdo. Miller sob o ponto de vista masculino e Anais Nin sob o feminino, o que a torna um paradigma literário. Não sem razão, a obra de Miller, americano de origem alemã que se auto-exilou na França na primeira metade do século passado, não ter sido publicada nos Estados Unidos durante décadas. Ainda bem que existem Paris e franceses, como até o new yorker Woody Allen admite. Ainda bem que existem os EUA e americanos como Miller e Allen. E o próprio Kaufman, que também é americano. Porque, no fim, são eles que hoje revelam o artista para o mundo. Apesar de todos os defeitos da "América", eu concordo com o Caetano: grande parte da alegria do mundo vem dos americanos. O puritanismo não impediu o florescimento da rica literatura americana; talvez o catolicismo tenha prejudicado mais o despontar da nossa literatura luso-brasileira. O mais interessante na relação Anais Nin & Henry Miller foi a capacidade de um excitar a obra do outro, como se um injetasse sangue em ebulição na veia do outro, e daí um e outro extraíssem arte pura. Vale, a partir do filme, ler as obras desses escritores, "Trópico de Câncer", de Miller, para começar, e "Henry e June" de Anais Nin. Nin também tem um livro muito interessante, de ensaios, chamado "Em busca de um homem sensível", que mostra a dificuldade das mulheres lidarem, ainda hoje, com homens que não pretendem dominá-las. Salve, então, Henry e Anais.

3 de mai de 2008

Ode à Alegria, de F. von Shiller, cantada na 9 de Beethoven

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!
(Barítonos, quarteto e coro)
Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Teus encantos unem novamente
O que o rigor da moda separou.
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu vôo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, também aquele que apenas uma alma,
possa chamar de sua sobre a Terra.
Mas quem nunca o tenha podido
Livre de seu pranto esta Aliança!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos dá beijos e as vinhas
Um amigo provado até a morte;
A volúpia foi concedida ao verme
E o Querubim está diante de Deus!
(Tenor solo e coro)
Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóboda celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória.
(Coro)
Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóboda estrelada
Deve morar o Pai Amado.
Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóboda estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.

1 de mai de 2008

Acreditem, este poema integra a Bíblia!

"Como és bela e graciosa   
ó meu amor, ó minhas delícias!
Teu porte assemelha-se ao da palmeira,
  de que teus dois seios são os cachos.
'Vou subir à palmeira, disse eu comigo mesmo,
   e colherei os seus frutos'.
Sejam-me os teus seios
    como cachos de vinha.
E o perfume de tua boca como o odor das maçãs;
     teus beijos são como um vinho delicioso
que corre para o bem-amado,
      umedecendo-lhe os lábios na hora do sono."

 Cântico dos Cânticos 7, 7-10

É interessante ler todo o cântico atribuído a Salomão e surpreender-se com o erotismo do texto, algo inacreditável em face da ação castradora do cristianismo.