31 de dez de 2010

balanço de fim de ano - Salve 2011

Escrevi este poema há dois anos, mas ele continua, em grande parte, atual, e vale ser republicado e lido e relido por mim mesmo, para que eu retire da bagagem o peso desnecessário e siga a minha viagem de peregrino com mais leveza e com um pouco mais de consciência de onde estou e para onde vou.
2010 tem sido um ano de mudanças maravilhosas para mim e a mais importante, sem dúvida, é o meu reencontro com Deus, que não desistiu de mim. Um caminho parecido com o de muitos céticos, a exemplo do percorrido por C. S.. Lewis. Dou graças e estou certo de que 2011 será igualmente fantástico. FELIZ 2011.

Balanço de fim de ano

Fim de ano
Balanço
A minha existência ondeante, o ano, os anos

Muito se passou, muito há por(vir)

O que fiz, o que faço, o que farei?
Tive filhos, mandei plantar uma árvore, não escrevi
aquele livro

Mudei muito, mudo muito, sempre vou mudar muito
E tornei a ser o que sou
Eu não sei
Mutante que perscruta os enigmas que atormentam as criaturas que penam
Por este e por outros mundos
De dia, ainda que escaldante o sol ou torrencial a chuva
À noite, pelas sombras, iluminado apenas pelo frágil fogo da vela
Cera consumida grão a grão

Já fui crédulo mas a idade da razão me ensinou a descrer primeiro
Duvido como método mas quero crer
Em que?
Que não vou morrer em vão, que o vazio pode ser preenchido
Como um poema que vai dando forma e beleza à folha em branco
Como uma criança toda dependente da mãe que vai descobrindo os movimentos de emancipação

Não me pergunte sobre Deus, eu o procurei por todo canto
Em todo beco escuro
Nas igrejas, nos centros, nos templos, nas sinagogas
Como o filho bastardo atrás do pai desconhecido
Ansioso por uma verdade que, acredita, irá torná-lo menos indigno
Menos desprovido de uma causa plausível
Só encontrei o silêncio eloqüente da tragicomédia humana
A repugnante imagem da besta devorando a inocência ensangüentada

Pergunte-me sobre o Homem, eu os encontrei alguns
Homens e mulheres
Que desafiam a lógica dos céus e da terra, com técnica e arte
E das dores produzem a alegria momentânea de viver
Para a deles e para as gerações futuras
E eu os invejo de inveja boa

Não sou pessimista nem amargo, sou apenas o que vê com olhos críticos

Amei muito, amo muito, sempre vou amar muito
Porque só a paixão possui a capacidade de criar
A liberdade, a verdade, a beleza, a justiça
Porque só quem tem paixão está disposto o pagar o preço
De seguir em frente, sem medo do sofrimento e do fracasso

Amei e odiei as mulheres que me rejeitaram
Amei e desamei as que me amaram
E amo uma vez mais, combustível, inflamável
Eternamente enquanto dure
Até que a morte nos separe

À cumplicidade dos amantes não há gozo comparável

Mas tem o espelho
Revelando as rugas, os cabelos e a barba brancos, o segundo tempo
O tic tac jogando contra
Como eu queria a minha maturidade somada à juventude que perdi
Como eu desejo a sensual imortalidade do Highlander
Que pela espada vence deuses e demônios e mortais
Numa conquista constante da liberdade
Alimentando-se da aventura trovejante da história
E renascendo a cada instante e por toda a eternidade

Pudera eu viver sem fim para escrever história(s)

Não importa, tem o agora
A infinitude do presente aberta para a concretização dos sonhos
De liberdade
De verdade
De beleza
De justiça

Vou transformá-los em realidade agora, é o que importa
Porque o espelho também me confessa: você pode!

c cardoso

21 de jun de 2010

Eu te
espero noite e dia (após) noite
E dia de
contida espera
Eu te quero
e temia que após querer-te
Seria a
vida loucura e desencanto
Sem você
noite e dia, iria perder-te
E viveria
repetida a sós a era
Em que o
amante conheceria o pranto
Eu te
espero
É dia
Eu te quero
Que
Seria a
vida
Sem você?

c cardoso

20 de jun de 2010

anjos

Não existem anjos, assexuados, com suas asas recolhidas ou abertas, em algum lugar no espaço etéreo guardando a gente, atuando como mensageiros junto a um deus produto da nossa necessidade de preencher o vazio. Mas existem anjos, sim, homens e mulheres, com sangue nas veias, protegendo-nos, anonimamente em geral, sem precisar de uma prece, lutando diariamente, alguns nos lugares mais obscuros do mundo, outros, em grandes centros urbanos, todos com um objetivo: contribuir para uma vida melhor, para a evolução. Por exemplo, cientistas pesquisando a cura de doenças, cuidando da flora e da fauna, investigando novas fontes de energia e criando novas tecnologias; médicos, enfermeiros, veterinários e bombeiros salvando vidas; advogados defendendo injustiçados; engenheiros construíndo casas, pontes, metros e aviões; policiais cuidando da segurança; empresários produzindo alimentos, roupas, empregos e filantropia; professores transmitindo conhecimento e valores...São esses seres que merecem a nossa atenção e o nosso reconhecimento, não aqueles invisíveis e silenciosos residentes de uma dimensão que só cabe nos livros de ficção. Quanto tempo desperdiçado com o ilusório, em igrejas, quando deveríamos gastá-lo na aquisição do saber? Quanto dinheiro jogado fora, enriquecendo líderes religiosos charlatães, quando deveríamos usá-lo investindo em Ciência e Tecnologia? É verdade que a Ciência tem as suas limitações e não satisfaz plenamente, mas quanto não teríamos ampliado as fronteiras do conhecimento se nos dedicássemos mais a ela e menos à religião e aos seus mitos?

16 de jun de 2010

esta rua não

Al(quem) estendido sob o tecido roto
Encardido como a calçada de pedras corroídas,
Na cama de papelão e frio dorme e não sonha,
Cadáver em que ainda há um sopro inaldível.

O manto não é coberta, é mortalha sagrada.

O cachorro e as pulgas sonolentos
Velam o amigo de desventuras e abandono,
Aquecidos pela porta do estabelecimento cerrada,
À espera das horas, do momento de catar as sobras.

Os meus olhos aflitos no espanto...

Quantos por esta rua de prédios cinzentos [como suas peles]
Pelo tempo descuidados jogados pelos cantos
Amontoados nas paredes grafitadas sem arte
Respirando as fezes, o mijo, o crack.

Rápido, rápido, me afasta daqui para a minha rua!

Esta rua não é a minha calçada de pedras cintilantes
Circundada por torres altivas de uma côr impecável
Espelhos da gente que ali passa rumo à casa
Para encontrar a lareira, o vinho, o abraço.

c cardoso

13 de jun de 2010

Uma das principais razões que me motivaram a mudar para São Paulo foi o seu lado cultural. A cidade oferece inúmeras opções: concertos clássicos ou de rock; cinema experimental ou holllywoodiano; arte nas ruas, nas galerias, nos museus, e teatro, muito teatro, para todos os gostos, dos duvidosos aos mais requintados. Para o dia 12, dos namorados, pretendia levar a minha namorada para ver "Simplesmente eu, Clarice Lispector", mas os ingressos estavam esgotados até o fim da temporada. O jantar romântico reservei para a noite anterior, sabendo o quanto seria difícil encontrar uma mesa em um bom restaurante na data em que todos os pares entram no clima das luzes de velas ao som de músicas que falam de amores, estimulados pelo sábio comércio. Decidi, então, assistir a uma outra Clarice, também judia, também talentosa, no monólogo "A Alma Imoral", baseado na obra do Rabino Nilton Bonder, e não me arrependi. Clarice Niskier atua sozinha, no palco de poucas luzes e muitas sombras, decorado de modo minimalista, com foco na sua dança de desnudar-se e de cobrir-se, despindo e vestindo as mentes de quem a assiste. Ela dialoga soberana com a platéia, ainda que ninguém a responda falando, mas apenas sorria ou dilate as pupila, tentando acompanhar o seu raciocínio rápido, as suas provocações à nossa sensibilidade. Valendo-se de histórias do Judaísmo, ela enfrenta como tema central a tensão entre a tradição e a transgressão, e demonstra, com um humor sutil e refinado, tipicamente judaico, que é a boa convivência com essa tensão que produz a evolução do ser humano. É ela a ponte entre o passado e o futuro. De fato, se de um lado a tradição revela a sabedoria construída pelo tempo por meio da experiência, de outro, nada se experimentaria, de modo a estabelecer a tradição, se não se arriscasse a quebrá-la. Aonde estaria a humanidade ainda, se inteiramente fiel à tradição, por exemplo, de oferecer sacrifícios humanos aos deuses, de possuir escravos adquiridos nas vitórias das guerras, ou de estuprar as mulheres dos inimigos usando-as como troféu de batalhas? Aonde estaria a humanidade ainda, se Corpénico e Galileu não tivessem ido de encontro à tradição do geocentrismo, os navegadores do sec. XV não tivessem desafiado os monstros dos Oceanos, e os Iluministas tivessem se mantido curvados à tradição absolutista? Porém, o que seríamos nós se não tivéssemos conservado a filosofia dos Gregos, a experiência jurídica dos Romanos, a tradição democrática inglesa, a arte inspirada nos mitos de todos os tempos e de todos os cantos do Planeta? A sabedoria está em distinguir o que conservar e o que jogar no lixo e em ter coragem para conservar o que deve ser conservado e em descartar o que deve ser descartado, não importa quantos se oponham a isso. Sem esses sábios e corajosos, a espécie humana nem se conserva nem progride. Isto vale também, claro, para o indivíduo e o seu crescimento como ser. Transgredir por transgredir é tolice, como também o é seguir hábitos e costumes por comodismo. Como bem assinala a peça, o destino do homem é a expansão, destino este já revelado no ventre materno. Seria mais confortável para o bebê permanecer ali, alimentado pela mãe e protegido, pelo líquido aminiótico, das mazelas do mundo exterior. Mas é necessário que ele rompa com este conforto, se lance de cabeça para as incertezas do mundo afora, e cresça em liberdade, senhor do seu rumo. Do contrário, ele não sobrevive. É preciso que não temamos as mudanças indispensáveis e que igualmente não desprezemos o conhecimento elaborado ao longo da nossa história, como ensina a tradição judaica segundo a leitura do Rabino Bonder. Vê-se, aqui, que a arte de Clarice Niskier cumpriu a sua função, me fez sorrir e me fez pensar.

10 de jun de 2010

Fé e descrença

Ruth Tucker, escritora cristã, resolveu, forçada pelas suas próprias dúvidas, examinar como as pessoas religiosas, ou que foram religiosas um dia, particularmente no meio cristão norte-americano, lidam com a incerteza quanto à existência de um Deus pessoal e quanto à ação de uma força sobrenatural sobre as suas vidas. Contrariamente aos fundamentalistas que não admitem sequer que essa questão passe pela cabeça e que satanizam qualquer um que se atreva a fazer essa pergunta essencial, ela busca compreender a luta entre a fé e a descrença bem como as suas consequências na existência do questionador, embora o intuito da autora seja, ao final, tentar, respeitosamente, trazer de volta o descrente para a fé cristã e não afastá-lo definitivamente por causa da intolerância. Achei interessante a leitura da obra "Fé e Descrença", porque ela noticia experiências semelhantes à minha, de pessoas que, nascidas em um ambiente religioso, abandonaram a fé, depois de muito procurar e questionar, e tornaram-se agnósticas ou atéias, movidas pelo silêncio de um Deus ausente e pelas provocações da razão. No meu caso, os meus pais, apesar de não ligados a nenhuma denominação religiosa, sempre acreditaram piamente na existência de Deus e sempre se consideraram cristãos, adotando aquele sincretismo tipicamente brasileiro, em que Catolicismo e Espiritismo se mesclam contra todos os dogmas. Por algum motivo inexplicável, essa influência cultural encontrou em mim barreira intransponível e, como diz Caetano em uma de suas músicas, para mim "branco é branco, preto é preto, e a mulata não é a tal..." Por isso, tornei-me católico ortodoxo, mas sem perder o senso crítico. O Catolicismo possui uma estrutura material e imaterial bem organizada, tradição milenar, e é elemento fundamental da formação da identidade brasileira, o que o diferencia das seitas, principalmente protestantes, que vão se multiplicando de modo infinezimal, conforme o humor do auto-denominado pastor que interpreta a Bíblia conforme a clientela. Mas, por ser, em que pese a busca de uma identidade via enquadramento, um livre pensador insatisfeito com as respostas oferecidas pelo Catolicismo e vivendo sempre cheio de dúvidas, abandonei o Catolicismo e procurei o Espiritismo, depois a Teosofia, o Budismo, o Judaísmo, o Protestantismo tradicional, sempre lendo (a Bíblia, por exemplo, com suas histórias entediantes ou incompreensíveis), sempre orando (monólogo), indo a fundo, seguindo as regras (mandamentos) e nada de respostas convincentes, e nada de manifestação divina. Um círculo vicioso. Aí descobri a Filosofia. Na verdade, até então, por causa de Dostoievski, eu pensava que não precisava nem da Filosofia nem da Psicologia, pois bastava a Literatura para entender a vida. Descobri a Filosofia, repito. Ela me revelou que, se ela e a Ciência não têm todas as respostas, e nunca terão, o meu método, o da dúvida, é o método do filósofo e do cientista que nos aproxima da verdade, do horizonte. Ela me mostrou que a fé cega é mesmo incompatível com a verdade que eu tanto procuro. Ela está me ensinando a pensar, a valorizar a razão, e a entender os nossos limites. Acima de tudo, ela me ensina a ser tolerante, porque não há certezas. Mas é a Arte que me aconselha a parar de me torturar à procura de um Ser transcedental que me de sentido. O sentido da minha existência sou eu quem dá, não uma divindade criada por nós para justificar o desconhecido. Isto, para muitos parece terrível, pois parece mais confortável delegar responsabilidades. Para mim, não mais. Para mim, é melhor ter claro o que é mito e o que não é. Qual a diferença do Deus judaico-cristão para os deuses gregos, romanos ou egípcios? Por que Zeus é um mito e Javé não? Felizmente, nós evoluímos e ampliamos os nossos conhecimentos até percebemos que a era dos mitos tem de acabar. Estamos conscientes de que um trovão não é provocado por um deus. Muitos parecem que não, que pena! Sabemos, ou deveríamos saber, que, até prova em contrário, Darwin está certo. Tucker e vários outros permanecem na fé porque é mais cômodo. É mais cômodo continuar enquadrado, porque o enquadramento oferece um rumo experimentado, que não oferece grandes riscos. Talvez isso implique menos angustias. Mas, ela reconhece, muitos que deixaram de acreditar são hoje mais felizes. Não só porque deixaram de sentir uma culpa que lhes foi atribuída por um pretenso pecado cometido por ancestrais mitológicos conhecidos como Adão e Eva - nem a Justiça humana, tão cheia de vícios, cometeria tamanha injustiça - mas também porque deixaram de ir atrás de alguém que simplesmente não está lá, e, por isso, não virá em nosso socorro. São mais felizes, porque não são mais perturbados pelo ensurdecedor silêncio e porque assumiram a autoria de suas vidas sem se preocupar com o que vem depois da morte. Eu sou mais feliz, apesar de tanta responsabilidade, porque não mais trago culpas que não são minhas, porque não mais busco o que é impossível de encontrar, porque só eu sou o dono da minha vida e eu sou capaz de dirigi-la. Não me importa que não sou imortal. Importa que estou contribuíndo para os que estão relacionados comigo e as gerações que virão depois sejam felizes na medida do que está ao meu alcance. Engana-se aquele que acredita que, como dito por personagem de Dostoievski, sem Deus tudo é permitido. Quem não acredita em Deus pode ser tão ou mais ético do que quem acredita, e com maior mérito, pois a sua conduta certa não decorre do medo da punição mas do uso da razão. Veja, a propósito, por exemplo, as lições de Paul Singer. A ética do ateu, porém, tratarei posteriormente.

8 de jun de 2010

Frio

Esta noite não, Sem Sentido!
O ar assalta pela fresta
Frio de arrepiar os ossos da
Alma saudosa de aconchego.

Criança órfã no sofá surrado,
As luzes, os prédios, a TV.
Não há folhas tremulando. Nada há, apesar do sopro.

Quem recolhido por trás daquelas janelas...
Só? Aquecido(a)?
Braços e pernas encolhidos,
Gelados no berço fashion.
O choro lá e cá.
Adulto. Faminto.

Onde está você para me aquecer
Com os seus seios?
Onde está você para me acalentar
Com o seu (en)canto?

Noite e frio e
Prédios e luzes e
TV

Quer uma sopa, Sem Sentido?

c cardoso

3 de jun de 2010

shame on me

Fiquei meses sem escrever, sem visitar o meu próprio blog. Para que? perguntei-me inúmeras vezes, afinal ninguém lê mesmo! Nunca concordei com alguns escritores que afirmam que escrevem para eles próprios, pouco importando o leitor. A escrita, é essencialmente, um meio de comunicação e requer um comunicador e um receptor. Se esse receptor não reage, ela está falhando de alguma forma. É verdade que ela também envolve a minha necessidade vital de escavar as profundezas obscuras de minha alma e da sociedade em que vivo à procura de uma luz acerca do meu ser e de minha situação em universo incompreensível. Por intermédio dela me exponho não só para o outro mas para mim mesmo e me descubro um pouco mais à medida que me identifico e me diferencio. Talvez até expulse fantasmas, ou os compreenda melhor, sem necessitar gastar com psicanalistas. Mas quando o que escrevo não atinge o leitor, sinto aquele pavoroso silêncio de quando tolamente cria e orava e ninguém, a não ser o o vazio, respondia. Detesto monólogos. Odeio aqueles que adoram ouvir longamente e apenas a própria voz. Nada me dá mais prazer do que trocar idéias e sensações. Sei que é raro um escritor observar a reação de um leitor, mas eu já tive esse privilégio. Já pude ver na expressão facial da pessoa que lia um poema meu que ela estava sendo tocada. As palavras não eram a conjunção de letras de um alfabeto desconhecido. Eram o som de uma música que convida a dançar a dois. Não ter escrito esses meses é uma vergonha! Sei que há leitores, uns poucos talvez, mas que me honram com a sua disposição de me escutarem, e, por isso, merecem que eu não me cale e que eu aperfeiçoe cada vez mais o uso das palavras e provoque reações. Ainda que seja um único, eu tenho que continuar escrevendo. Expressando-me. Por mim. Sem isso, é morte em conta gotas. É o isolamento do moribundo. Com isso, é a arte de viver.

8 de fev de 2010

Segundo Tempo

Bob Buford, empresário discípulo do guru da Gestão Peter Drucker, escreveu um livro muito interessante, “Halftime”, na tradução brasileira com o titulo “A Arte de Virar o Jogo no Segundo Tempo da Vida”, ed. Mundo Cristão.

O autor observa que inúmeras pessoas na faixa etária entre 35 e 45 anos, embora bem-sucedidas em suas carreiras, se deparam com um sentimento de que há um vazio a ser preenchido em suas vidas. Pessoas que trabalharam incansavelmente para alcançar o sucesso, que souberam usar todo o seu talento para atingir o topo, conseguindo admiração em seu meio profissional e conquistando recursos mais do que suficientes para usufruir do melhor que a sociedade produz. Elas obtiveram sucesso mas sentem falta de um sentido. Ele assinala, então, que o primeiro tempo da vida se mostra um tempo do sucesso e o segundo deve apresentar-se como o do significado.

Ele relata o próprio caso, o de um proprietário e CEO de uma empresa de TV a cabo de expressão regional nos Estados Unidos, milionário, com uma família bem estruturada, firmada em valores consolidados, que em um determinado momento se pergunta se o que ele vem realizando até então é a sua verdadeira missão. A partir desta indagação, ele fez uma autoanálise e o que ele chama de “prospecção” no meio em que vive para verificar se e como ele pode realizar aquilo que o seu íntimo lhe revela como forma de obter a plenitude do ser. Buford, devido à sólida formação cristã, desvenda que a sua missão é contribuir para que os valores da sua crença efetivamente penetrem na sociedade americana, influenciando de modo substantivo o rumo dos Estados Unidos. Ele percebe que a sua vocação não é a de pastor, mas de gestor. Assim, e atento aos ensinamentos de Peter Drucker, ele deixa a sua empresa, sem abandonar o seu talento e os conhecimentos adquiridos ao longo do primeiro tempo do jogo da vida para, no segundo tempo, colaborar com pastores na gestão de igrejas e na formação de lideres e difundir suas ideias.

Não cabe, aqui, entrar no mérito das crenças religiosas de Bob Buford, que respeito sem concordar. Independentemente de ser ou não cristão, e eu não o sou, é de se reconhecer que essa, digamos, crise da meia-idade é real e merece ser levada a sério.

Curiosamente, antes mesmo de descobrir essa obra, eu também já fazia uma analogia entre o nosso tempo de vida e o tempo de uma partida de futebol, torcendo para que também a minha vida dure pelo menos 90 anos, com direito a prorrogação. E, igualmente, verifiquei que, chegado o tempo em que a contagem parece mais regressiva do que nunca, dar sentido à vida torna-se mais e mais imperioso, isto é, fazer aquilo que o mais íntimo do ser clama por ver concretizado, algo que registra que a existência não é vã, transforma-se em vital.

Na verdade, não se deve esperar até a meia-idade para isso. A vida não é um jogo com tempo certo para terminar e pode ser tarde demais quando se decidir por desviar para o caminho do ser. Tanto melhor compatibilizar ser e ter, desde cedo. Mas, não raro, as circunstâncias, como a necessidade de ganhar o pão de cada dia e de cuidar da família em um ambiente que não favorece a vocação, levam a priorizar o ter. O certo é que, mais cedo ou mais tarde, essa crise, que separa os dois tempos como um intervalo em que se avalia o resultado do jogo até o momento e se traça uma estratégia para não perdê-lo, terá que ser enfrentada, e só vencerá o que tiver a ousadia de superar o simples existir e criar o ser.

5 de fev de 2010

Os jornais de 2 de fevereiro deste ano noticiaram a reação da China contra a confirmação da Casa Branca de que Barack Obama irá receber o Dalai Lama ainda este mês. A BBC-Brasil relata a ameaça de um representante chinês:
“Zhu Weiqun, uma autoridade do Partido Comunista chinês, afirmou que vai haver uma ‘ação correspondente’ caso o encontro realmente ocorra.
‘Isso vai prejudicar muito as fundações das relações políticas entre Estados Unidos e China", afirmou. "Se acontecer, vamos tomar medidas correspondentes para fazer com que os países relevantes compreendam seus erros.’"
Não sei a que tipo de ação correspondente a autoridade chinesa se refere, mas é um sinal de que as demais economias devem se preocupar com a sua crescente dependência da economia da China, e reagir para não cairem subjugadas. A China mostra cada vez mais sinais de que é mesmo um dragão que se agiganta e que impiedosamente devorará os que atravessarem o seu caminho.

O domínio começa pela economia, depois abrange a política. Tanto assim que, apesar do tratamento que a China dá a opositores do Partido Comunista, a minorias étnicas, e a grupos religiosos, por exemplo, com violação dos direitos humanos por meio da tortura ou de prisões sem o devido processo legal, e da restrição a direitos fundamentais como a liberdade de pensamento e de expressão, poucos países atrevem-se a criticar o regime chinês e a tomar medidas sancionatórias semelhantes às adotadas em relação a outras nações que não possuem o mesmo poderio nem a mesma agressividade.

Um dia desses vi, no Globo News Painel, dois economistas brasileiros aceitarem com tanta naturalidade o autoritarismo do regime chinês que fiquei pasmo. Disseram que lá só não pode falar mal do governo, do PC, do Estado chinês, o resto tudo pode...e que a maioria do povo chinês está preocupada apenas em ganhar e gastar dinheiro. Um dos economistas, especialista em comércio exterior, disse que ele faz negócios com a China há 30 anos e nunca percebeu a repressão que anunciam por aí. Chegou a sugerir que existem outras formas de democracia que não a Ocidental e que as críticas à China decorrem da visão etnocentrista européia!!! É um exemplo alarmante de como pesam os negócios da China.

Barack Obama merece aplausos ao mostrar para a China que não é o Partido Comunista chinês que vai dizer aos Estados Unidos da América quem os norte-americanos devem ou não receber em sua casa. Merece aplausos também ao não se intimidar e por acolher o lider refugiado de um povo oprimido que tem muito a dizer a respeito da liberdade e da ausência de liberdade. Que mais lideres não se acovardem e sigam o exemplo do Presidente norte-americano!

30 de jan de 2010

seu corpo meu

Ah Maria maria...
Deitada, deleitada, toda sonho.
E eu esparramado ali
Deitado, arrebatado, todo alumbramento
Em busca da palavra precisa.

Sua nudez branca como chantili
Que derrete doce na língua gulosa,
O fluido do tesão e o produto do prazer
Que tudo lambuza sem lamento
A face, os seios, a pélvis, os lençóis...

Meus olhos seguem em carícias
Abertos, ou apenas encostados
Como uma porta convidativa para (re)viver
Cada ponto dos seus traços aveludados,
Cada toque das suas mãos cheias de malícias.

Meus dedos movem-se insaciados
Como os do pianista cego e virtuoso
Que conduzem à alegria e à dor.
Mas temem acordar a mulher com seu ardor
E furtar-lhe a leveza do sono merecido.

Que designer inspirado!
Foi deus ou a evolução que desenhou esse corpo,
Que o tempo não tornou feio,
Que nenhum cirurgião deixou deformado?
De onde no Universo imensamente belo você veio?

Ah Maria maria...
Permaneça o seu corpo junto ao meu.
Ele me faz de imperfeito uma nudez perfeita
O meu ser que ao gozar do seu
É mais que um corpo feliz, é felicidade completa.

c cardoso

28 de jan de 2010

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Ontem foi o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Há sessenta e cinco anos o exército soviético libertou os sobreviventes de Auschwitz. A barbárie nazista deve continuar na memória da humanidade como permanente alerta contra a potencial perversidade do ser humano, capaz de, se as circunstâncias ou as lideranças o permitirem, provocar dor e distruição de apavorar o mais insensível dos carrascos. Em respeito à memória das vítimas do Holocausto e como expressão da minha admiração pelo povo judeu, republico o seguinte poema meu:

Todos os homens são judeus


Para Bernard Malamud

Ouve ó Israel,
Eu sou judeu,
Minha mãe não, mas eu sou!

Saudoso do deus inexistente,
Vago estrangeiro de quarentena no deserto,
Em busca da Terra em que mana leite e mel,
Esperançoso do fim da interminável guerra dos dementes
E do encontro com a razão prometida no tempo das Luzes.

Persigo insistente a verdade oculta,
O justo, o belo, Talião, Nobel.
Por isso muitos me olham atrevessado.
Zombando das minhas feições tão germânicas quanto etíopes,
Do gordo vestindo Armani e com charuto cubano na mão,
Do famélico trajando listas e estrela num campo de concentração.

Ah! o rancor e a inveja...

É necessário rir. O riso é já vitória.
Rio de mim, rio do outro,
Em homenagem à grande comédia
Vida!
Riso que se segue ao choro,
Às vestes rasgadas, às cinzas lançadas às costas em sinal de luto,
Pelas mentes e pelos corpos arremessados nas covas coletivas.

Por que tanta inveja e tanto rancor?

Tolice! Sua mãe não é judia
Mas você é judeu, como eu.
Como todos os homens
Vagando pelo deserto
Ansiando por Israel.

c cardoso

25 de jan de 2010

Homenagem a São Paulo - 456 anos

Relembro, em homenagem aos 456 anos da cidade de São Paulo, poema que escrevi para ela em outra ocasião:

Evocações de São Paulo


Passos amarrados
Pés acelerados
Calçados surrados sapatos italianos sandálias de dedo Havaianas saltos altos all star
Barulhos ocos ou silenciosos vão e vêm
Sob a calçada de mapas uniformes brancos e pretos
Sem reparar
O desenho
O contraste
O vento
A garoa
O papel em vôo livre que se recusa a ser lixo, Estadão, Folha
Movimentos lusitanos italianos africanos judeus árabes bolivianos mineiros e baianos,
Luz Bexiga Cerqueira César Santana TucuruviVila Mada Bom Retiro Higienópolis Mooca...Jardins
A cidade não termina, dá medo de tão grande!
Zona Norte Zona Sul Zona Leste Zona Oeste Zona global a partir da Sé
Japoneses ou coreanos ou chineses, Liberdade
Paulistas, paulistanos
Casais de todos os números e gêneros, tribos, punk
E solitários, de dia de noite
Paulistanos todos
Ainda que se odeiem, ou sejam indiferentes
Ainda que corintianos, palmerenses, sãopaulinos
O Pelé, o Senna, a Paula Mágica
Esbarram-se, cortam ruas e avenidas
Os olhos se cruzam às vezes
Enquanto se deviam dos carros que se desviam da marcha lenta
Sinal verde amarelo vermelho verde
Buzina
Fumaça
Sirene
E o céu, quem olha? Pergunta:
Será que vai chover?
Arranha-céus por todo lado, quantos andares!!!!!!!!!!??????
À noite, as luzes nas janelas acesas apagadas acesas abrasadas
Provocam brilho no olhar curioso do voyeur
Espelhados, fumês, espelhos d’água, concretos, retângulos, Otake
Paulista Avenida e ruas retilíneas e curvas
Esculturas esculpidas no abstrato, linhas retas esferas ponto
As mãos desejam acariciar bustos, corpos desnudos beijos
Rodin na Pinacoteca
Pinceladas robustas rasgantes rascantes cabeças grandes graffiti Osgemeos
Sobrados aqui e ali, resistindo aos tempos de megalomania
Lindas mulheres esguias ou não, grife Oscar Freire
Flores nas roupa flores no cabelo
Cores na roupa cores no cabelo, tatuagem
Vestidas com uma elegância que desmente Caetano,
As ondas invadem os céus, os prédios, os automóveis
Rock pop hip hop samba funk clássico eletrizante
No parque Ibirapuera na Sala São Paulo no Municipal
Osesp, Filarmônica de Israel, Titãs e o Arnaldo Antunes,
Vanzolini e sua ronda, os Demônios da Garoa e o Adoniran,
Maria Rita Lee, festivais da Record
E o Cauby no Bar Brahma
Metrô
Buracos
Marginais
Tietê
Rio dos fortes, dos desafios bandeirantes
Como quem chega, como quem fica, como quem parte mas não desiste
Perfumes de agora trazidos pela memória
Tabaco, café, pão francês saído do forno, com manteiga derretendo
Pizza, churrasquinho grego, esfirra, pastel de Bacalhau e temperos no Mercado Municipal
De vitrôs retratando o labor como a semente do progresso
E a lazanha da Cássia
Sabores e cheiros do mundo todos na Paulicéia que apenas se insinua
Tímida perua
Lá no topo do Itália, vejo São Paulo e me espelho
Que visão panorâmica do caos que é existir sem medida
Em expansão por não caber em si!
Em mim!

c cardoso

19 de jan de 2010

Segundo ato

Segundo ato

Ano após ano, década após década, 1961...1981...2001...
Assombraram-me irrespondíveis indagações shakespearianas
Sufocaram-me a garganta as vestes mundanas
Dominou-me a culpa de ser apenas mais um
Ator medíocre conduzido por um arrogante ícone

Movimentei-me pelos palcos do absurdo da condição humana
Imerso em cenários minimalistas como uma sala despojada
Ou densos como pórticos de uma catedral gótica flamejante
Atuei sob luzes suaves como as das estrelas na noite campestre
Cantei e dancei sob luminosos berrantes da megalópole insone

Na arte de ser muitos e de não ser nada eu fui mestre
Cavaleiro, combati moinhos para conquistar a amada
Mercador, cobrei um pedaço do coração para emprestar glória
Andarilho, percorri o paraíso, o purgatório e o inferno com Dante
Personagem, procurei desamparado o Autor da História

No segundo ato, eu grito: basta!
De palcos que eu não escolhi
De cenários que eu não montei
De personagens que eu não criei
De histórias que eu não escrevi

c cardoso

18 de jan de 2010

A internet mudou meu modo de pensar?

No Estadão de ontem, foi publicado um artigo de Sérgio Augusto a respeito de uma pergunta feita a artistas, psicólogos, cientistas e outras cabeças pensantes de destaque, no âmbito do fórum internacional Edge Foundation: a internet está mudando o seu modo de pensar?
Embora eu seja um anônimo em meio à multidão, e não tenha sido convidado para participar daquele fórum, ouso responder esta interessantíssima e oportuna questão, ao menos para minha reflexão pessoal.
Estou naquele grupo de pessoas que cresceram e alcançaram a vida adulta antes que a revolução da internet chegasse ao Brasil. Soube, pela internet, aliás, que faço parte da geração “baby boomer” (nascidos entre 1946 e 1964) e que, depois da minha vieram a geração X (1965/1981) e a geração Y (década de 80 e início da década de 90), a dos meus filhos – que, por sinal, me ajudam muito quando o assunto é informática - também chamada de geração internet. Estas últimas gerações acompanharam, desde a infância, o desenvolvimento das novas tecnologias, em especial a da informática, e por isso são delas mais íntimas do que as anteriores. Claro que em todas há os que seguem as inovações, uns mais outros menos, e se adaptam a ela de acordo com o seu empenho. Meu pai, parafraseando os darwinistas, dizia que QI corresponde à capacidade de adaptação ao meio, às circunstâncias. Eu, aos 48 anos de idade, venho me adaptando bem, ciente de que, além dos mais jovens, há cinquentões e sessentões melhor ajustados ao mundo virtual do que eu. Isto só contribui para estimular-me a aprender mais e a buscar me valer ao máximo dos instrumentos que as novas tecnologias vêm proporcionando.
E aqui surge a minha resposta à indagação do início: a internet, em si, não mudou o meu modo de pensar. E creio que ela não muda o modo de pensar de ninguém. Ela é, essencialmente, um instrumento que permite o acesso incalculável à informação. Ela não transforma pensamentos mas colabora com o pensar, com uma eficiência jamais oferecida por nenhum outro meio de comunicação. Ela me oferece acesso suficiente a conhecimentos que me autorizam a analisar, a decidir e a agir de modo apropriado às circunstâncias, cabendo a mim explorá-la com sabedoria. A vida é feita de escolhas e, quanto mais bem informada a pessoa for, mais decisões adequadas ela estará apta a tomar e menos consequências danosas tenderá a provocar. De qualquer forma, a responsabilidade é inteiramente nossa, não da internet.
As acusações feitas por gente apegada ao passado de que seus usuários se transformam em pessoas alienadas, isoladas e superficiais na mesma proporção do uso são infundadas. O alienado, o isolado, o superficial, ele já o é independentemente do uso da internet. A internet apenas torna esse fato mais evidente. Aquele que pretende estar ligado à realidade, interagir com o mundo a sua volta, e aprofundar o seus conhecimentos, busca usufruir de todas as possibilidades que esse precioso instrumento disponibiliza, cada vez mais amplas, e extrai realizações concretas em benefício próprio e da coletividade.
Além de instrumento que ajuda a pensar, ela democratiza a expressão do pensamento à medida que torna mais fácil a divulgação de idéias, antes restrita aos que têm acesso aos controladores de jornais, revistas, editoras, e canais de rádio e de TV. Assume, portanto, um papel cada vez mais relevante na preservação e na ampliação da liberdade de pensamento e de expressão, liberdades estas fundamentais para que o ser humano realize todo o seu potencial e a humanidade evolua.
Cabe o seguinte alerta: a sociedade deve combater qualquer tentativa de controle da internet que atente contra a liberdade de expressão, lembrando-se que as melhores idéias florescem em solo de ampla liberdade, onde elas podem ser testadas. A verdade é, se e enquanto, colocada à prova dos fatos, não é desmentida. Se, em relação a ela, são criadas barreiras instransponíveis à crítica, a exemplo do que ocorre com os dogmas de fé e as ideologias, trata-se apenas de uma hipótese que deve ser vista com suspeita.
Não podemos admitir sermos tutelados em nosso acesso à informação como se fossemos idiotas ou crianças.
Por fim, é necessário guardar no coração e na mente: a supressão da liberdade de expressão é o primeiro passo para a violação dos demais direitos fundamentais do homem.

11 de jan de 2010

Maus - Art Spiegelman

Li, recentemente, o livro "Maus" de Art Spiegelman, um romance em forma de história em quadrinhos que relata a vida de um judeu polonês, o pai do autor, durante o nazismo e a perseguição e matança de judeus, como também a relação do pai sobrevivente do Holocausto com o filho artista, depois da Guerra, nos Estados Unidos. A obra impressiona não só pelo tema abordado, que sempre nos atinge no mais fundo do ser diante da notória barbárie, mas igualmente pelo realismo que os desenhos metafóricos, em diversas tonalidades de preto e branco, transmite ao leitor. Os judeus são representados como ratos, os alemães gatos, os poloneses não judeus porcos, e os americanos cães. E, conforme as circunstâncias exigem, o rosto de rato mascara-se de porco, por exemplo, para passar despercebido diante das forças perversas e colaboracionistas. Os personagens surgem e desaparecem entre os milhões anônimos que vivem a luta extrema pela sobrevivência, perplexos em face do arbítrio levado às últimas consequências, em que a vida do inimigo imaginário vale menos que a de um rato em um laboratório ou nos esgotos pútridos. Obras como essa são sempre indispensáveis como alerta permanente contra o Estado absolutista e totalizante. Essa espécie de Estado alimenta a perversidade humana, seja por estimular o ódio contra o diverso, seja por consagrar a irresponsabilidade daqueles que o dominam ou que o servem; ele procura sustentar pela violência física e moral a idéia monolítica que justifica a ação dessa gente e não aceita o contraditório. Exige a unanimidade servil e mostra aversão ao indivíduo, em especial ao livre pensador. Só um indivíduo é sagrado: o Grande Guia, mitificado pela manipulação das informações e pela propaganda oficial, com suas fotos obrigatoriamente presentes nas paredes e nos meios de comunicação. Tudo em nome do coletivo, defendido heroicamente pelo Partido, que se pretende único, inigualável, e por seus membros que, sob o manto do idealismo, escondem o desejo insaciável das benesses colocadas à sua disposição pelo Poder como recompensa pela fidelidade. Todo ser humano deve prezar e lutar pela liberdade, sem a qual o humano não é por inteiro nem terá a oportunidade de realizar todo o seu potencial em favor do progresso da humanidade. Toda pessoa deve estar atenta às medidas dos Governos e de grupos intolerantes, tendentes à supressão da liberdade, a começar por aquelas que visam a restringir a liberdade de pensamento e de expressão. Combatê-las é essencial à conservação dos direitos e garantias individuais, pois, como a história demonstra, é inegável o poder das idéias, para o bem e para o mal, e só idéias podem verdadeiramente enfrentar idéias.

8 de jan de 2010

Ainda sobre viver e morrer

É preciso dar o devido valor à vida e à morte. A consciência da morte e da sua inevitabilidade é fundamental mas apenas para revelar quão inestimável é a vida. Melhor ainda uma vida com significado. E talvez não exista maior sentido a ser dado à vida do que a defesa da vida como sentido. É o tal do círculo virtuoso. Alguém disse que só o fato de existirmos já nos faz vencedores, afinal o nosso nascimento é resultado da vitória de um espermatozóide que competiu com milhões que morreram sem conseguir semear. Basta dar continuidade ao passo original e seguir em frente, entre derrotas e vitórias, mas sempre vencedor porque vivo!

Há pessoas cuja vida é morrer dia após dia, há outras cuja existência é ser até o momento derradeiro. eu estou neste último grupo.

2010

2010 já começou, embora em compasso pré-carnavalesco. De um lado, a propaganda oficial fazendo proselitismo, do início do dia até o reinício do dia, de um otimismo nacionalista capaz de causar inveja a Goebbles; de outro, os jornais matutinos, vespertinos e 24 horas no ar divulgando tragédias naturais e horrores humanos de desanimar até o Cândido de Voltaire. Eu, como sempre, e mais este ano, busco o caminho do meio, nem euforia nem depressão, embora não deixe de sofrer oscilações entre a alegria e a tristeza, o que é sinal de saúde, de que não sou controlado pela pílula que impõe o equilíbrio alienante. Tento agir de modo próximo ao que conduz o "amor fati" de Nietzsche, isto é, esforço-me para aceitar aquilo que não posso modificar. Sem ser conformista, contudo. Na verdade, sou um incorrigível idealista: na juventude, queria revolucionar o mundo; hoje, de um homem de sucesso transformar-me em um de significado e colaborar, ao menos com o exemplo e em relação aos mais próximos, para uma mudança em pról da vida, de uma vida livre, porque sem liberdade não há criatividade; criativa, porque sem criatividade não há progresso; progressista, porque sem progresso não há prosperidade; próspera, porque sem prosperidade não há justiça; justa, porque sem justiça não há dignidade; digna, porque sem dignidade não há beleza; bela, porque sem beleza não há felicidade... Por pensar assim, admiro muito a filosofia de vida contida na Oração da Serenidade, oração que deveria ser recitada diariamente mesmo pelos que não acreditam em Deus:

"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras." Reinhold Niebuhr


Que o ano novo nos traga serenidade, coragem e sabedoria!