13 de jun de 2010

Uma das principais razões que me motivaram a mudar para São Paulo foi o seu lado cultural. A cidade oferece inúmeras opções: concertos clássicos ou de rock; cinema experimental ou holllywoodiano; arte nas ruas, nas galerias, nos museus, e teatro, muito teatro, para todos os gostos, dos duvidosos aos mais requintados. Para o dia 12, dos namorados, pretendia levar a minha namorada para ver "Simplesmente eu, Clarice Lispector", mas os ingressos estavam esgotados até o fim da temporada. O jantar romântico reservei para a noite anterior, sabendo o quanto seria difícil encontrar uma mesa em um bom restaurante na data em que todos os pares entram no clima das luzes de velas ao som de músicas que falam de amores, estimulados pelo sábio comércio. Decidi, então, assistir a uma outra Clarice, também judia, também talentosa, no monólogo "A Alma Imoral", baseado na obra do Rabino Nilton Bonder, e não me arrependi. Clarice Niskier atua sozinha, no palco de poucas luzes e muitas sombras, decorado de modo minimalista, com foco na sua dança de desnudar-se e de cobrir-se, despindo e vestindo as mentes de quem a assiste. Ela dialoga soberana com a platéia, ainda que ninguém a responda falando, mas apenas sorria ou dilate as pupila, tentando acompanhar o seu raciocínio rápido, as suas provocações à nossa sensibilidade. Valendo-se de histórias do Judaísmo, ela enfrenta como tema central a tensão entre a tradição e a transgressão, e demonstra, com um humor sutil e refinado, tipicamente judaico, que é a boa convivência com essa tensão que produz a evolução do ser humano. É ela a ponte entre o passado e o futuro. De fato, se de um lado a tradição revela a sabedoria construída pelo tempo por meio da experiência, de outro, nada se experimentaria, de modo a estabelecer a tradição, se não se arriscasse a quebrá-la. Aonde estaria a humanidade ainda, se inteiramente fiel à tradição, por exemplo, de oferecer sacrifícios humanos aos deuses, de possuir escravos adquiridos nas vitórias das guerras, ou de estuprar as mulheres dos inimigos usando-as como troféu de batalhas? Aonde estaria a humanidade ainda, se Corpénico e Galileu não tivessem ido de encontro à tradição do geocentrismo, os navegadores do sec. XV não tivessem desafiado os monstros dos Oceanos, e os Iluministas tivessem se mantido curvados à tradição absolutista? Porém, o que seríamos nós se não tivéssemos conservado a filosofia dos Gregos, a experiência jurídica dos Romanos, a tradição democrática inglesa, a arte inspirada nos mitos de todos os tempos e de todos os cantos do Planeta? A sabedoria está em distinguir o que conservar e o que jogar no lixo e em ter coragem para conservar o que deve ser conservado e em descartar o que deve ser descartado, não importa quantos se oponham a isso. Sem esses sábios e corajosos, a espécie humana nem se conserva nem progride. Isto vale também, claro, para o indivíduo e o seu crescimento como ser. Transgredir por transgredir é tolice, como também o é seguir hábitos e costumes por comodismo. Como bem assinala a peça, o destino do homem é a expansão, destino este já revelado no ventre materno. Seria mais confortável para o bebê permanecer ali, alimentado pela mãe e protegido, pelo líquido aminiótico, das mazelas do mundo exterior. Mas é necessário que ele rompa com este conforto, se lance de cabeça para as incertezas do mundo afora, e cresça em liberdade, senhor do seu rumo. Do contrário, ele não sobrevive. É preciso que não temamos as mudanças indispensáveis e que igualmente não desprezemos o conhecimento elaborado ao longo da nossa história, como ensina a tradição judaica segundo a leitura do Rabino Bonder. Vê-se, aqui, que a arte de Clarice Niskier cumpriu a sua função, me fez sorrir e me fez pensar.

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