31 de jul de 2008

Rotina

Detesto rotina, mas o poema declamado na propaganda da Natura, sobre o tema, faz-me até pensar que seguir uma rotina, no fim das contas, não é tão mal assim. O autor, muita gente está tentando descobrir na internet. Enquanto isso, peço licença para transcrever.

Rotina… (do comercial da Natura)

A idéia é a rotina do papel.
O céu é a rotina do edifício.
O inicio é a rotina do final.
A escolha é a rotina do gosto.
A rotina do espelho é o oposto.
A rotina do perfume é a lembrança.
O pé é a rotina da dança.
A rotina da garganta é o rock.
A rotina da mão é o toque.
Julieta é a rotina do queijo.
A rotina da boca é o desejo.
O vento é a rotina do assobio.
A rotina da pele é o arrepio.
A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza.
Toda rotina tem a sua beleza

27 de jul de 2008

Brincando com o tempo

Bricando com o tempo

TEM
TEMPO?
SEM
TEMPO!
 EM
TEMPO:
         PORRA...

c cardoso

quadrilha - variação do tema drummondiano

Quadrilha – Uma variação sobre o tema drummondiano


Teresa amava Raimundo que amava Maria
Que pensava que amava Joaquim que não sabia se amava Maria
Porque desejava Lili que não amava ninguém.
Teresa chorou a crueldade e a falta de sentido do adeus, mudou-se
Raimundo tomou um porre ou dois ou muitos, depois do adeus e do não, resignou-se
Maria disse não para dizer sim e foi atrás do sonho de Joaquim, viajou
Se sofreu ninguém notou
Joaquim, na dúvida, respondeu sim, para não ouvir não
Melhor não trocar o certo pelo duvidoso, filosofou
Lili, de paixão não sofria, divertia-se
Saía com J. P. F. que preferia rapazes.

c cardoso

24 de jul de 2008

Amar - mais Drummond

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

poesia - Drummond

Poesia

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Carlos Drummond de Andrade

22 de jul de 2008

O pássaro cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar ?
É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender ;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
“Não quero o teu alpiste !
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti !
Não quero a tua esplêndida gaiola !
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol !
Com que direito à escravidão me obrigas ?
Quero saudar as pompas do arrebol !
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas !
Por que me prendes ? Solta-me covarde !
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar ! voar ! ... “
Estas coisas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão ...

Olavo Bilac

21 de jul de 2008

Batman, o cavaleiro das trevas

Eu, na adolescência, não dava a menor importância a histórias em quadrinhos. Pareciam-me infantis. Os heróis, super-heróis, que me impressionaram estavam nas telas, não nos quadrinhos. Super-Homem, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Batman, eu os conheci pela televisão, nas séries e nos desenhos animados. Eu cresci junto com a TV no Brasil, vendo TV, fascinado pelas histórias contadas por meio de imagens em movimento. Um movimento ainda ingênuo e maniqueísta, onde os heróis eram inteiramente bons e os bandidos maus. Isso não me fez um ingênuo nem um maniqueísta. Fez-me desconfiar dos super-heróis. Nada é tão simples. Em um determinado momento da vida, os quadrinhos interessantes eram os do Manara, os da revista Heavy Metal, Mad e Asterix. Perdoem-me os admiradores do gênero. Foi o meu filho, um grande especialista em HQ e colecionador desde pequeno, que me ensinou a respeitar os quadrinhos e me apresentou Neil Gaiman e Frank Miller. Eu ainda prefiro o Gaiman contista, não consegui entender bem as viagens de Sandman. E ainda fico com os super-heróis e seus inimigos lutando na tela. Gostei do Homem-Aranha, e particularmente do Homem de Ferro interpretado por Robert Downey Jr. de modo hipnotizante ( o desenho era um dos meus preferidos na infância). Vi, sexta-feira, Batman, o cavaleiro das trevas. Muito bom! Gothan City, dominada por quadrilhas, parece-nos muito familiar. Em tempos de trevas, quando o Estado é ineficiente e controlado por corruptos, é necessária a presença de um justiceiro, que faz justiça com as próprias mãos seguindo regras próprias. Ele é Batman, venerado e odiado pelos cidadãos de bem da cidade. Mas Batman está cansado do seu papel, quer uma vida comum, quer e confia que o Estado, na figura do promotor incorruptível, assumirá a função de promover a justiça, segundo as leis, e Gothan não necessitará mais dele. Deseja um tempo de luz. Mas o Estado continua falhando, sob o deboche do Curinga. O promotor é vítima da incompetência estatal e da ironia do Curinga, abandona os ideais, e mergulha na amargura e no desejo de vingança, como Duas Faces. O justiceiro permanece indispensável. Christian Bale está muito bem no papel de homem-morcego, expressando convincentemente as angústias do herói. Do filme participam excelentes atores, mas a interpretação memorável fica por conta de Heath Ledge. Este ator, morto prematuramente, encarna tão espetacularmente a maldade e o sacarsmo do Curinga que, aposto, leva um Oscar. Aprendi com o meu filho que HQ também é arte, que na tela do cinema ganha côr especial. Meu filho me ensina a superar preconceitos.

14 de jul de 2008

autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa

13 de jul de 2008

garimpar poesia

Poucas atividades são tão prazerosas quanto o garimpar poesia para saboreá-la e compartilhá-la; Esta é uma das propostas deste blog. Encontrei, entre outras, esta preciosidade:

Escuridão, minha origem,
amo-te mais que a chama,
que é limitada,
porque só brilha
num círculo qualquer
fora do qual ninguém a conhece.

Mas a escuridão tudo abriga,
figuras e chama, animais e a mim,
e ela também retém
seres e poderes

E pode ser uma força grande
que perto de mim se expande

Eu creio em noites

Rainer Maria Rilke

E também esta:

Cantiga para não morrer

Quando você for embora,
Moça branca como a neve
Me leve.

Se acaso você não possa
Me carregar pela mão
Menina branca de neve,
Me leve no coração.

Se o coração não possa
Por acaso me levar,
Moça de sonho e de neve,
Me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
Por tanta coisa que leve
Já viva em seu pensamento,
Menina branca de neve,
Me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar

1 de jul de 2008

Deus é um sujeito com humor duvidoso

Deus é um sujeito com humor duvidoso.
Quem realmente compreende
qual é a desse senhor,
ora alegre ora irado?
Parece testar a criação o tempo todo
para ver quem vai tropeçar provocando na trindade e em seu exército riso
e no seu rebanho horror;
parece provar a todo momento quem vai se sair vencedor,
superando todas as tentações que ele gosta de fincar no caminho dos míseros
mortais,
Cuja queda ele jocosamente repreende.
E os que caírem se juntarão à imensa maioria de clowns ou pinóchios que fazem da dor
O gozo nos teatros freqüentados pelos eleitos santos;
o resto, algo próximo dos anjos, mas sem a graça daqueles anjos que não se conformam
e que não são tantos
desejam se jogar dos céus só para se sentirem humanos que doidamente amam,
especiais.
Deus tem uma diversão non sense.
Algo bem darwinista, sempre acusando que não estamos prontos.
E eu estou farto dele, porque enquanto ele se diverte, eu sofro.
Nós agonizamos entre encontros e desencontros,
Entre o sim e o não, entre a lucidez e a insanidade. Pense!
Por que, contra todas as regras que ele gosta de alardear por seus padres e pastores, rabinos e mulás, escritas em tábuas milenares,
ele aproximou de Betsabé o rei Davi?
Para confundir amor e ódio? E culpa? Condenação!?
Ou para gerar a sabedoria e a riqueza de Salomão?
Estranho deus, eu nunca vi.
Deixe-me em paz, seja o seu nome qual for:
Zeus, Javé, Alá, Tao, Brahma, Buda amida...
E tolera me ver saciar a minha fome do sabor
do fruto da árvore da ciência
Do bem e do mal, da vida!

c cardoso